Era uma cobra jovem e feliz. Gostava de apanhar sol com as amigas, ouvir a discografia do Tony que ecoava das janelas vizinhas e ver as montras na baixa. Não era um grande espécime, mas dava para o gasto. Afligia-a matar outros animais para comer. Houve tempos em que até pensou tornar-se vegetariana mas, sem suplementos vitamínicos, uma anemia estragou-lhe os planos. Gertrudes (assim a mãe cobra lhe havia chamado) lá se conformou.
Um dia a fome atingiu a comunidade rastejante. Eram finais de Agosto, as aulas de Fisiologia do ICBAS haviam terminado já fazia alguns tempos e os habituais ratos, ratinhos e ratazanas despojados no contentor mais próximo tinham já sido consumidos, não havendo mais nada para comer.
Enquanto passava, esfomeada, perto do Instituto dos mortos, uma barata mal-intencionada disse-lhe que no ICBAS haviam sobrado ainda alguns animais, guardados já para serem sacrificados (tudo em nome da ciência, é claro!) nas aulas do próximo ano. Um pouco relutante mas impulsionada pela fome de vários dias, Gertrudes entrou no dito Edificío. Estudantes moribundos, gente estranha de bata branca a passear de um lado para o outro, gente estranha sem bata a passear de um lado para o outro, e ratos... nem vê-los. Quando se apercebeu que tinha sido enganada era já tarde demais. À sua volta amontoava-se um bando de humanos barulhentos em pleno ataque de histeria, entre eles um que devia ser o Conan lá do sítio e que, para justificar a fama, não hesitou em pegar numa cabo de vasoura e desfazer a cabeça da grande Besta (10 cm, quando muito). Os outros aplaudiram, viraram costas e voltaram para a sua refastelada rotina. O momento emocionante do dia tinha acabado.
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quinta-feira, agosto 23, 2007
terça-feira, agosto 14, 2007
O grande circo de normalidades - Parte II
Chamavam-lhe Jack. Passavam-se já alguns anos do dia friorento em que os pais o trouxeram para casa. Já ninguém se lembra do brilho nos olhos das crianças quando o viram. Era a estrela dos serões, a dor de cabeça matinal da mãe que sozinha tratava do bicho.
Os míudos cresceram. Jack cresceu com eles. Perdeu a piada. Continuou uma dor de cabeça, agora restrita ao período das férias. Nem por um minuto, deixou de estar disposto a sacrificar a própria vida em defesa da sua família.
Chegou um novo Verão. A avó estava demasiado velha e cansada para tomar conta dele. Os hotéis para cães eram um custo desnecessário.
Jack entrou no carro. Pela primeira vez ia de férias com a família! Estava em extâse!
O carro parou no meio da estrada. A mãe abriu a porta e puxou Jack para fora do carro. O carro arrancou. Ainda desorientado começou a correr atrás do carro. Como era possível que a sua família se tivesse esquecido dele? O carro desaparaceu... Outro carro aproximou-se demasiado. A estrela da família deixou de ser uma dor de cabeça.
Os míudos cresceram. Jack cresceu com eles. Perdeu a piada. Continuou uma dor de cabeça, agora restrita ao período das férias. Nem por um minuto, deixou de estar disposto a sacrificar a própria vida em defesa da sua família.
Chegou um novo Verão. A avó estava demasiado velha e cansada para tomar conta dele. Os hotéis para cães eram um custo desnecessário.
Jack entrou no carro. Pela primeira vez ia de férias com a família! Estava em extâse!
O carro parou no meio da estrada. A mãe abriu a porta e puxou Jack para fora do carro. O carro arrancou. Ainda desorientado começou a correr atrás do carro. Como era possível que a sua família se tivesse esquecido dele? O carro desaparaceu... Outro carro aproximou-se demasiado. A estrela da família deixou de ser uma dor de cabeça.
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domingo, agosto 12, 2007
O grande circo de normalidades - Parte I
Era um míudo pacato. Estudava quando necessário. Saía com os amigos quando tinha que ser. Não falava em demasia, bebia em acompanhamento, não tinha queda para excessos. Quando os amigos exageravam, chamava-os à razão. Tinha medo, sabia que havia sempre algo a perder. Um dia sentiu-se sozinho. Foi para casa. Não chegou a casa. Nunca mais ninguém o viu. Os amigos formaram-se, casaram, são hoje homens de respeito. Por vezes lembram-se do "cromo" - era assim que carinhosamente o chamavam - e perdem 1 minuto a recordá-lo.
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